Acaso acontece.

Fantasia de solteiro.

fevereiro 3, 2010
2 Comentários

Sabe amiga, o que me fez acreditar que o cachorro era o homem da minha vida foi a forma como nos conhecemos. Eu já te contei, lembra? Aquela trombada na rua, quando quebrei meu salto e ele me ajudou? Achei lindo ele sair correndo pra comprar super bonder, colou meu salto e eu ainda cheguei à reunião a tempo! Ah foi lindo! Ai, ai, ai, faltou contar que ele trocou a super bonder pelo número do seu telefone.

Então, me envolvi de cabeça, me entreguei ao safado. Como poderia saber que ele era casado e tinha mulher e filhos no Rio? Se ele pelo menos tivesse um orkut, um face book, eu saberia, mas o cachorro acha isso tudo infantil. Nhem, nhem… Claro que acha, né! O cara tem vida dupla, vai ter que criar diversos perfis fakes para cada uma das vidas paralelas. Isso é loucura! Ou então ele é geminiano e tem ataques de dupla personalidade.

Agora pensa bem, olha que vida louca. Se ele quisesse fazer qualquer coisa comigo, me seqüestrar, me estuprar, sei lá… não deixaria rastros, tudo que eu sei da vida dele me parece mentira agora. Conheci apenas dois amigos, na verdade colegas de trabalho, e ele falava dos pais morando do Rio. Ah cachorro, vai ver nem tem Mãe e quando falava da Mãe estava falando da corna da mulher. Que vontade de contar tudo para esta mulher, de abrir os olhos dela, sabe? Toda hora lembro do álbum de fotos que encontrei no porta-luvas do carro! Ah que ódio! Podia descobrir o endereço deles no Rio e chegar fazendo um vendaval, baixar a Iansã na casa dele!

Você é muito engraçada, imagino rodando a baiana na casa do safado, seria lindo. Mas pense bem, vai ver ela sabe, ou desconfia e até mesmo aceita. Pode ser que para ela é mais confortável que ele pule a cerca e a deixe mais a vontade. A gente pensa muito nas convenções e tem gente que vive uma vida alternativa. É, mas com certeza ele tem medo de que eu faça algo, não é a toa que ele desapareceu. Que nada, pode ser que ele tenha desaparecido apenas porque não dá mais para te usar na fantasia de solteiro.


Papo de Natal.

janeiro 20, 2010
1 Comentário

Num canto da sala dois primos conversavam. O mais velho, um quarentão que aproveitou a adolescência na década de oitenta, foi hippe tardio, e curtiu o rock nacional. Entrou nos anos noventa acompanhando o movimento hard core e certo de que o futuro seria mais livre. Ficou perplexo com a caretice dos anos dois mil. O mais novo nasceu no início da década de noventa e vive hoje a adolescência na entrada da segunda década do século XXI.

Alienado pela informação? Que papo é este primo? Como assim? Desde quando a informação aliena? Muito simples, meu querido, olha o seu papo: você conhece as últimas tendências em design, sabe tudo sobre fotografia, vai terminar a faculdade e pode fazer uma pós na Itália, ou na Alemanha. Se preferir pode ir estudar cinema em Londres e seu drama de escolhas é onde estudar na Europa. Só não sabe o que se passa na praça sete.

Ah e por isso sou alienado, porque estudei e me dediquei a uma coisa que eu gosto? Porque estudo desde os quatorze anos uma coisa que me dá paixão e tesão de verdade? Exato, você é um tecnicista hedonista, um sujeito direcionado para desenvolver seus gostos e ser feliz com o que gosta. Você não gosta de política, por isso não sabe nada sobre. Você não se preocupa com a luta de classe, porque isso não se toca. Pode fazer um programa beneficente no natal, distribuir donativos com o pessoal da faculdade em uma creche, ou asilo. Mas no resto do ano, você nem sabe o que acontece com aquelas pessoas.

Poxa primo, o papo estava indo até bem, agora você vem me dar lição de moral? Vêm me cobrar participação e engajamento social? Ah, tenha dó, eu faço a minha parte e pronto. Não quero saber de política, de políticos, de luta de classes. A sociedade hoje é cada um por si, salve-se quem puder. Viu, chegamos ao ponto, você é um alienado. E é confortável ser alienado, é confortável repetir o discurso careta e reacionário do seu pai, sem procurar alternativa. A sua geração é refém do medo da violência que é pregada na televisão todo dia, do medo de arriscar e fazer diferente, do medo de ser você mesmo. Você se enquadra, se encareta no padrão, porque é mais confortável, bonito, elegante e prazeroso. Nem percebe que criou uma jaula de fantasia para você mesmo. Seu mundo é fake, igual suas relações virtuais. Mas não se desespere, não se deprima mais, esta tristeza emo é só um reflexo da insegurança do mundo. Ninguém sabe para onde vamos e a nova geração não quer a responsabilidade de tocar o barco. Já viu quem são os políticos jovens?


Relações Divinas.

dezembro 29, 2009
2 Comentários

Antes dos homens aprenderem a contar, o tempo era diferente. Os dias e as noites, assim como as estações, se sucediam em equilíbrio e velocidade habitual. As divindades circulavam pela terra interagindo com os seres que a habitavam. Havia bandos de todas as espécies de animais e surgiram as primeiras aldeias, onde os homens organizavam seus bandos.

Exu, dono de todos os caminhos da terra, resolveu fazer uma grande caminhada, passando do ocidente para o oriente, em direção a casa de Orum, o Deus sol. No caminho encontrou uma aldeia muito próspera que ficava entre os rios Tigre e Eufrates. Misturou-se aos homens para conhecer seus costumes, este era um dos motivos da sua viagem.

Os homens receberam o estrangeiro com muita alegria, queriam saber o que acontecia em outras aldeias. Conversaram por uma semana sem parar e Exu escutou sobre tudo o que se passava na aldeia. Entendeu que ali era cultuada Lakshmi, a divindade da prosperidade, esposa de Vixnu. Ao final do sétimo dia despediu-se, recebeu algumas oferendas, aconselhou os governantes que perigos poderiam chegar até a aldeia e continuou a viagem.

No caminho encontrou muitos viajantes que se dirigiam para aquela aldeia e resolveu usá-los para completar sua traquinagem. Assim, cada caravana que passava por ele era avisada dos perigos do caminho e dos homens mesquinhos e truculentos que habitavam a aldeia entre os rios Tigres e Eufrates. Para alguns ele afirmou que os governantes dessa aldeia estavam planejando fechar os caminhos e cobrar oferendas para os viajantes.

Preocupados com o futuro incerto e com o confronto adiante, os homens se armaram. Nas cercanias da aldeia várias caravanas se encontraram e todos estavam temerosos por cruzarem o portão de entrada. Um conselho de líderes se reuniu e decidiram que entrariam a noite, de surpresa, para não darem tempo de uma reação do suposto exército.

A noite que se seguiu foi de uma batalha terrível, ninguém se entendia e todos se matavam. O barulho foi tanto que acordou Shiva e ele resolveu a questão destruindo tudo o que os homens haviam construído e plantado naquele lugar.

Nos dias e noites que se sucederam outros homens apareceram por ali e ficaram impressionados com o que viram. Tiveram certeza, alguma divindade havia passado por ali e feito aquele trabalho. Preocupados, começaram a contar os dias a espera de terem tal encontro. Desse dia em diante todas as divindades passaram a ser cultuadas, e a espera por um Deus que pudesse resolver aquela questão passou a ser parte do tempo e a dividir as noites e os dias em meses e anos.


Sem romance.

dezembro 3, 2009
Comentários desativados

Seu Ângelo é comerciante estabelecido na rua dos caetés, lugar nobre no baixo belô, há mais de trinta anos. Foi ali, atrás do balcão, vendendo armarinhos e miudezas em geral, que criou os três filhos e até mesmo dois, dos seis netos. Tinha um narigão arqueado, que dizem ser de Libanês, ou Turco, ou talvez nem um dos dois e sim, Sírio, com certeza era descendente de árabes. Por algum motivo não gostava de comentar sobre os antepassados, parece que o passado da Mãe não era muito bento.

Por falta de benção vamos todos passar pelo menos no purgatório, quiçá descer mais um bocadinho. Seu Ângelo desceria ao purgatório fácil, fácil… em uma loja de armarinho, os principais clientes são mulheres e as atendentes também. Volta e meia se envolvia com alguma, o prazo de três meses para experiência era tempo suficiente para saber se daquele mato saia coelho, ou não. O que não fazia a menor diferença na contratação, contava muito mais a pontualidade e a dedicação a loja, do que a dedicação ao patrão.

O velho comerciante não era bobo, e colocava os interesses comerciais sempre em primeiro lugar, claro, se pudesse incluir algum interesse pessoal na jogada, ficava ainda melhor. E as mulheres eram o interesse número um daquele setentão que anunciava o viagra como a melhor invenção da humanidade depois da penicilina. Já fui salvo da sífilis, agora fui salvo da impotência, cochichava aos ouvidos dos amigos mais chegados. E para ser amigo dele precisava saber ouvir e ser discreto, ele adorava contar casos de suas conquistas, mas só ele podia passar as histórias adiante, aos outros pedia absoluto segredo. Aproveitando a memória fraca do Seu Augusto, que era dono da farmácia na esquina com amazonas, fez deste seu principal confidente.

Era final de semestre e os funcionários de bancos precisam cumprir metas. Analisando as contas do Armarinho Santo Antônio, viram que o Seu Ângelo poderia comprar uns títulos de capitalização ou outros serviços do banco. Começaram as investidas telefônicas e uma delas pegou Seu Ângelo de jeito. Uma voz doce e suave, sedutora até no som da respiração, descontrolou o velhote. Desculpou-se e disse que estava ocupado, pediu que ligasse outra hora. Durante a semana foram muitos outros telefonemas e ele já estava arrasado. Como chegaria até aquela voz, como conquistar aquela mulher?

Depois de fantasiar muito, de sonhar a noite e deixar Dona Magnólia com a sensação de d’javu, resolveu a questão. Acordou cedo, barbeou-se e vestiu um bom corte, foi ao banco com um grande buquê de flores do campo que comprou nas floristas da praça sete, suas velhas conhecidas. Entrou no banco pisando firme, foi até a atendente e perguntou pela gerente de produtos Renata Assis. A atendente muito simpática lhe indicou a mesa e ele pensou: se a secretária é assim, imagine a chefona.

-Bom dia Renata Assis!

-Bom dia, em que posso lhe ajudar.

Quando escutou aquela voz novamente e viu a deusa levantando-se com a mão esticada em sua direção, tremeu. Que espetáculo, que coisa mais linda, e agora o que faço? Percebeu que não conseguiria manobrar aquele avião, se sentiu impotente, fraco, quase um adolescente em sua primeira conquista. Respirou fundo, esticou o buquê e buscou forças no fundo de sua alma.

-Renata, a sua voz tem-me perturbado por noites, a minha intenção era convidá-la para sair uma noite dessas, só que agora percebi que isso seria um grande erro e eu perderia tudo o que conquistei na minha vida. Aceite estas flores e por favor não me ligue mais.


Amnésia

novembro 25, 2009
8 Comentários

Acordou com todas as ressacas do mundo, física, psicológica e moral. Estava abalado e não conseguia lembrar-se de todos os detalhes. Lembrava daquela moça linda que conheceu na festa, era estudante de Belas Artes. Porque insistia sempre em tomar mais uma? Porque não parava antes de chegar naquele estado crítico?

Desistiu de ficar na cama se martirizando, levantou e foi direto tomar um banho. Tomou café, enquanto tentava lembrar de mais detalhes da noite. Lembrou que a estudante foi embora enquanto ele tinha ido ao banheiro. Coisa estranha, será que havia falado alguma coisa que assustou? Pegou o celular, lembrou-se que em algum momento havia pedido o número dela. Quando se deparou com o nome e o número, nem acreditou, havia uma chance de reencontrá-la e saber o que aconteceu.

Resolveu que ligaria no final do dia, seria mais educado e menos ansioso. Ligou para um amigo e combinaram de tomar uma cerveja e almoçar no Antonio Pé de Cana. Um bar que fica na divisa do Carmo com o Sion, alto savassi, e onde encontra-se o melhor medalhão de boi da cidade.

Ainda no passeio, entre as mesas, viu a imagem que iria marcar o dia. A estudante da noite passada numa mesa lá no final do bar. Pelo perfil a reconheceu de imediato, mas ela não o viu, estava concentrada no papo com uma amiga. Apressou-se e escolheu uma mesa do lado oposto, logo o amigo chegaria e poderia ajudá-lo na abordagem. Era muita coincidência, devia ser algum recado divino, o acaso não é a toa. Estava nervoso, alegre e eufórico, tudo misturado.

Quando o amigo chegou teve que escutar a história da noite anterior, ou parte dela, já que a falta de memória impedia maiores detalhes. O amigo ficou espantado com a beleza da estudante, passou ao lado da mesa para ter certeza e voltou com a sugestão de que mandasse uma mensagem convidando-a para almoçar no próprio Antônio. Ele escreveu: Olá! Acordei com saudades. Vamos almoçar no Antônio Pé de Cana?

Acompanharam com olhares atentos o recebimento e a leitura da mensagem. A estudante imediatamente mostrou para a amiga, as duas riram em deboche. Quase foi até a mesa perguntar o que era tão engraçado. Antes de tomar uma atitude a viu pedir a conta ao garçom com um gesto.  Elas pagaram e foram embora apressadamente. Ele ficou com a sensação de que nunca saberia o que havia acontecido na noite anterior.


Inconfidência XXI

novembro 18, 2009
2 Comentários

Quando Ela entrou na sala, Ele tremeu todo, um arrepio correu-lhe pela espinha e uma felicidade estranha surgiu do nada. Sentiu imediatamente que conhecia aquela mulher há muito tempo, que sabia quem era e que a procura havia acabado. Enquanto a acompanhava com o olhar começou a reconhecer outras pessoas na sala, alguns recém chegados, outros que passaram despercebidos.

Não acreditava no que via, foi ao banheiro, lavou o rosto, respirou fundo e voltou para observar. Lá estavam Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Domingos de Abreu Vieira, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, os padres José da Silva e Oliveira Rolim, Carlos Correia de Toledo, o cônego Luís Vieira da Silva, o sargento-mor Luís Vaz de Toledo Pisa e o alferes Joaquim José da Silva Xavier

No primeiro olhar viu pessoas normais e desconhecidas, quando olhava com intensidade percebia pessoas conhecidas de um outro tempo. Mais um gole, uma baforada e enquanto a fumaça se dissipava no ar tudo ficou claro. Havia encontrado sua amada e seus velhos amigos de Inconfidência, estavam ali para montar outro movimento. Neste momento se preocupou, será que Joaquim Silvério dos Reis, está por aqui? Será que ainda vai chegar?

Alguém lhe apresentou: esta é a Bárbara. Ele gaguejou de emoção, ela sorriu em estrelas. Não havia mais dúvidas, eram eles, mas como explicar isso. Pareceria louco, deveria deixar acontecer naturalmente. Conspirar não é uma atividade simples, é preciso audácia e muito sangue frio. Haveria à hora exata de abordá-los e agora com mais atenção aos possíveis delatores.

Conversou um pouco com os que havia reconhecido, Bárbara lhe deu uma atenção especial. Em certo momento ela disse. Sabe, tenho a impressão de te conhecer há tempos. Outros dois que estavam próximos concordaram. A sua fisionomia é familiar…  Coisas de Belo Horizonte, esta enorme cidade do interior! Um ovo! Uma roça grande! E o papo fluiu no trivial. Antes de ir embora e certo que reencontrara a sua amada, lhe entregou um bilhete discretamente, sem que ninguém percebesse.

À Bárbara

Bárbara bela, Do Norte estrela.

Que o meu destino soube guiar,

Com ti presente, alegre somente

As horas passo a celebrar.

Por entre as salas De incultas casas
Cansei-me a vista De te buscar;
Agora vejo Mais que o desejo,
A bonança De te reencontrar.

Eu bem queria A noite e o dia
Sempre contigo Poder passar;
Foi generosa, Sorte majestosa,
Desta fortuna Me presentear.

Tu, entre meus braços, Ternos abraços
Com minha amada poderei gozar;
Brilha a estrela De ti e dela,
Em novos modos De nos amar!


Arrumação

novembro 11, 2009
2 Comentários

Oh Ju, fiquei preocupada quando vi a sua mensagem, vim correndo pra cá, o que aconteceu amiga? Ah, as mesmas coisas de sempre, o Leo, o Vini, a Ana, a Carlinha… sabe, nem meu analista está dando conta mais, é muita gente na minha vida, é muita indecisão, é muita confusão. Não sei quem eu quero, não sei quem me quer e nem sei se preciso escolher mesmo. Aliás, não quero escolher mais nada nesta vida, quero só ser escolhida. Virei princesa, pronto!

Ai, ai, amiga, você não percebe né!? Olha este quarto? Não percebo o quê? Que quê tem o meu quarto? O seu quarto é o reflexo da sua vida, uma bagunça só. Você troca de relacionamento como troca de roupa e deixa tudo espalhado pelo chão. Olhe esta blusa, você usou no eletronika no sábado e está aqui jogada no chão.

Pode parar! Vai dar uma de Mãe agora e me regular? Já chega ela falando da minha bagunça. Sabia que agora a minha família só entra no meu quarto com minha autorização? Cansei de ser alugada pela minha bagunça e no mais, eu gosto do meu quarto assim, movimentado. Quarto arrumadinho demais é sinal de muita frescura, de chatice, de gente quadrada.

Isso, entenda isso. A sua vida é um quarto bagunçado porque você não é quadrada, você não quer se enquadrar. Assim, seus relacionamentos ficam bagunçados também. Ai meus sais! Lição de moral com analogia de livro motivacional é um saquinho. Me ajude amiga, não me regule, me ajude.

Só te ajudo se você aceitar ajuda. Vamos começar separando o que você vai mandar para a lavanderia. Eu não vou arrumar o meu quarto agora, nem fu! Então, você vai mandar para lavanderia o Leo ou o Vini? Hahahaha… pode ser os dois. Sim, pode. E então, o que volta para as gavetas? Hum… a Ana é primeira gaveta, para momentos triviais e de intimidade. Ah, então coloca ela na gaveta das calcinhas. Hihihi

Quem mais? Hum, o carinha que fiquei no show do Faith No More no domingo. Gaveta, coloca pra lavar ou uso de novo? Sei lá, como vou dar palpites de um cara que nem conheço. Conhece sim, fiquei com o Rafa. Não acredito, você ficou com o Rafa no show? Fiquei sim e depois fui lá pra casa dele dar uma esticada. Entende que a bagunça é maior ainda. Ah amiga, mas nessa eu posso te ajudar. Me empresta o Rafa no próximo final de semana?


Descobridor dos Sete Mares.

novembro 3, 2009
3 Comentários

Depois que ganhou O Som e Fúria de Tim Maia, biografia escrita pelo Nelson Motta, teve certeza e repetia para todos quando comentava do livro: minha vida nunca mais será a mesma depois deste livro. É impressionante a loucura, a liberdade, a coragem, a cara de pau e o sem de humor deste cara. O mundo seria muito melhor se tivessem mais Tins Maias. A vida seria mais espontânea, mais alegre e muito mais livre. Um sujeito que sacaneava com a caretice sem medo, sem dó, sem pensar duas vezes.

 

Ah, beleza, então você quer ficar doidão, falido e esquecido como o Tim Maia? Se liga, você só conhecia Chocolate, Azul da Cor do Mar, Você e mais umas duas ou três músicas dele. Ele era um porra louca, sem noção, drogado e que se ferrou, mas do jeito que saiu no livro e que você fica repetindo, parece até que ele era algum gênio da música. Um cara que não conseguia usar mais de quatro acordes em uma música. Preste atenção, você virou macaca de auditório do Nelson Motta.

 

Depois da sacaneada que o amigo lhe deu na frente da turma, preferiu se calar e foi pesquisar mais, foi conhecer melhor as músicas daquele mulato gordo e muito louco. Descobriu os dois discos Racionais, da época em que o Tim estava sem pó, sem ácido, sem maconha e ligadão na Seita Universo em Desencanto. Hoje cada disco vale mais de quinhentos reais, mas conseguiu baixa-los na internet. E procurou mais, achou os raros e pouco falados: Tim Maia 1970, 1971, 1972 e 1973. Estava completamente seduzido pelo Tim e mandou para todos os amigos as músicas que baixava na internet. Para o amigo que havia malhando ele e o Tim, escreveu um bilhete especial.

 

Até Que Enfim Encontrei Você, Compadre, Não Quero Dinheiro, Preciso Aprender A Ser Só. Um Dia Eu Chego Lá, Não Vou Ficar no Lamento. É Primavera, é Azul Da Cor Do Mar, é A Festa Do Santo Reis com Canário do Rei, que só tem em Meu País. Sou Réu Confesso, O Que Importa? Você Fingiu, eu Gostava Tanto De Você, não é Por Você Que Vivo, mas O Que Você Quer Apostar? Foi aquele papo que me levou a escutar todo O Balanço, o New Love, o Coroné Antônio Bento, a Cristina, a Jurema, o Padre Cícero, Risos… até um Salve Nossa Senhora. É que a minha Idade, Já era Tempo De Você Saber, O Que Importa, não é o que a gente Sofre, ou A Razão De Sambar. A Musica No Ar, Preciso Ser Amado, Amores, Coragem, Chocolate e Paz.


O viajante

outubro 27, 2009
2 Comentários

Fazia tempo que o viajante não aparecia e apesar de morar a pouca distância, suas visitas ficaram raras. Entendo o motivo e antes que ele tentasse alguma justificativa fui emendando uma falação que, para ele pareceu planejado. A mim pareceu um surto e me assustei com os caminhos que descobri.

Pois eu te falo meu amigo é essa sensibilidade que nos agonia. Esses sentimentos acerbados que vão nos roendo por dentro e fazendo do mundo um mar de dores. Sei muito bem que você é do meu tipo, do tipo que não sente pela metade. Isto de mais ou menos, meio cheio, meio vazio, não é do nosso acerto. Gostamos das coisas por completo dos sentimentos que vem do fundo da alma e transbordam em gozo ou dor.

Sei também que preferimos o gozo, que somos hedonistas e vivemos por prazer. É uma satisfação perceber que as pessoas que nos rodeiam o fazem também para beber um pouco dessa nossa leveza. Disfarçamos muito bem os momentos de peso. Não passar o peso pra frente também é um jeito nosso. Roemos a dor no fundo do quarto e exaltamos o gozo pelos bares.

Estou dizendo isso não por ser bom, talvez nem seja bom remoer estas coisas. Digo-lhe isso, porque sinto que o mundo precisa de mais seres iguais a gente. Pode parecer que me gabo e pode até parecer muita vaidade, coisa de ególatra. Só que olhando ao redor vejo um mundo bobo, burro e sem rumo. É inegável que estes sentimentos que carregamos e alimentamos com força nos fazem seres diferentes.

Não é porque paramos para contemplar a natureza, ou sentir o perfume das flores. Não é porque olhamos para o céu e sabemos quando vai chover. Não é porque dialogamos com as estrelas e sabemos o mapa astral de nossas amadas. Também não é porque estudamos Jung, Freud, Nietzsche, Lacan e sei lá mais quem… Muito menos porque sabemos história, política, sociologia e outras bazofias do nosso tempo. Tenho certeza somos seres diferentes porque sentimos com propriedade.

Lembra daquele papo sobre os mal humorados e pessimistas? Gente que vê o mundo com uma descrença enorme, que só vê as tragédias, o fim, e esquecem da viagem. Lembra que víamos neles grande erudição e chegamos a acreditar uma vez que só existe inteligência no pessimismo? Quanta bobagem, quanta gente remoendo os fins sem aproveitar os meios. Quando concluímos o papo sobre os mal humorados que fazem do mau humor uma marca engraçada, você me disse: cada um ri do que pode, uns da tristeza de ser, outros da leveza de poder ser. Eu nunca me esqueci disso e repito comigo sempre.


Normal

outubro 20, 2009
1 Comentário

Olha Doutor, como já lhe disse, não tem motivo para eu estar aqui, vim porque insistiram muito, na verdade foi um complô: primeiro minha Mãe, depois minhas irmãs e por último minhas amigas. Todas acham que eu preciso de ajuda. Minha Mãe diz que eu estou louca mesmo e que isso é resultado da minha teimosia. Apesar delas falarem tanto, estou bem, me sinto bem e de bem com o mundo. O mundo é que não anda nada bem e não me entende direito. A única coisa que me fez vir é que estou tendo dificuldades para me relacionar e isso nunca aconteceu comigo antes. O Senhor acha que dificuldade para se relacionar é loucura?

Não se preocupe em estar louca ou não. Isso é muito relativo. Fale mais sobre esta dificuldade de relacionamento.

Nossa, isso é difícil. Sabe, não sou nenhuma santa… aqui pode falar de tudo, é segredo entre a gente, certo!? Pois então, não sou nenhuma santa, mas também não sou nenhuma depravada. Já fiquei com vários meninos numa mesma noite, mas era zueira, brincadeira de adolescente, sabe como!? Então, isso não é doença. Tive dois namorados, o primeiro namorado na época de colégio e o segundo no início da faculdade. Quando estava mais ou menos no meio do curso, resolvi terminar, queria curtir a vida e estava achando tudo muito chato.

Terminei com o Fernando e fui viver a vida, foi ai que comecei a ter problemas. Algumas amigas acham que sou atirada demais, algumas se afastaram. Até correu boato na faculdade de que eu havia virado puta. Ai começou a ficar chato. Toda festa que eu ia os caras já chegavam tentando me beijar, no início eu segurava a onda, mas depois que bebia, ficava com todo mundo, beijava a festa inteira. Mas não transava com ninguém. Não mesmo doutor, não consigo transar com um cara que acabei de conhecer, nem mesmo com um amigo, se não tem um clima não dá.

Olha, estou te contando isso e espero a sua idoneidade profissional. Se contar para alguém eu volto aqui e rodo a baiana. Pois então, nas festas eu passei a ficar com todo mundo, resolvi acabar com a hipocrisia de algumas meninas e fazia para provocar. Era ótimo, deixava todo mundo na fissura e depois saía fora. Só uma vez fui para a casa de um cara que tinha acabado de conhecer e transei com ele, não me lembro como foi, mas cheguei em casa no outro dia, numa boa.

Agora o problema é que conheci um cara. Este é diferente, sabe? Ele fala diferente, é inteligente, engraçado, muito educado, um cara legal. Só que não sei o que quero com ele, ao mesmo tempo que mexe comigo, também não sinto assim, tão atraída, parece que falta alguma coisa, sei lá… ai me enrolo toda, fico sem paciência… brigo com quem não tem nada a ver… outro dia dei um bolo nele sem mais nem menos e depois me arrependi. Sabe Doutor, pensando bem, vou bom vir aqui… Quero a sua opinião como homem, já tenho opiniões femininas… ah, nem precisa ser profissional, opinião de homem mesmo. O que faço? Fico com este cara? Namoro com ele?  Como explicar que eu quero conhecê-lo, mas não quero namorar? Está vendo, eu sou normal, estas dúvidas é que são um saco.


Próxima Página »

Sobre o autor

Tudo que parece perfeito está de longe ou ainda não enxergamos os detalhes. As maravilhas da imperfeição é que fazem a vida valer a pena. Desconfio de gente muito certa, de regras, de certezas e absolutismos. É que vejo o mundo em transformação e o que é, já era.

Pesquisa

Navegação

Categorias:

Links:

Arquivos:

Feeds