Oh Ju, fiquei preocupada quando vi a sua mensagem, vim correndo pra cá, o que aconteceu amiga? Ah, as mesmas coisas de sempre, o Leo, o Vini, a Ana, a Carlinha… sabe, nem meu analista está dando conta mais, é muita gente na minha vida, é muita indecisão, é muita confusão. Não sei quem eu quero, não sei quem me quer e nem sei se preciso escolher mesmo. Aliás, não quero escolher mais nada nesta vida, quero só ser escolhida. Virei princesa, pronto!
Ai, ai, amiga, você não percebe né!? Olha este quarto? Não percebo o quê? Que quê tem o meu quarto? O seu quarto é o reflexo da sua vida, uma bagunça só. Você troca de relacionamento como troca de roupa e deixa tudo espalhado pelo chão. Olhe esta blusa, você usou no eletronika no sábado e está aqui jogada no chão.
Pode parar! Vai dar uma de Mãe agora e me regular? Já chega ela falando da minha bagunça. Sabia que agora a minha família só entra no meu quarto com minha autorização? Cansei de ser alugada pela minha bagunça e no mais, eu gosto do meu quarto assim, movimentado. Quarto arrumadinho demais é sinal de muita frescura, de chatice, de gente quadrada.
Isso, entenda isso. A sua vida é um quarto bagunçado porque você não é quadrada, você não quer se enquadrar. Assim, seus relacionamentos ficam bagunçados também. Ai meus sais! Lição de moral com analogia de livro motivacional é um saquinho. Me ajude amiga, não me regule, me ajude.
Só te ajudo se você aceitar ajuda. Vamos começar separando o que você vai mandar para a lavanderia. Eu não vou arrumar o meu quarto agora, nem fu! Então, você vai mandar para lavanderia o Leo ou o Vini? Hahahaha… pode ser os dois. Sim, pode. E então, o que volta para as gavetas? Hum… a Ana é primeira gaveta, para momentos triviais e de intimidade. Ah, então coloca ela na gaveta das calcinhas. Hihihi
Quem mais? Hum, o carinha que fiquei no show do Faith No More no domingo. Gaveta, coloca pra lavar ou uso de novo? Sei lá, como vou dar palpites de um cara que nem conheço. Conhece sim, fiquei com o Rafa. Não acredito, você ficou com o Rafa no show? Fiquei sim e depois fui lá pra casa dele dar uma esticada. Entende que a bagunça é maior ainda. Ah amiga, mas nessa eu posso te ajudar. Me empresta o Rafa no próximo final de semana?
Fazia tempo que o viajante não aparecia e apesar de morar a pouca distância, suas visitas ficaram raras. Entendo o motivo e antes que ele tentasse alguma justificativa fui emendando uma falação que, para ele pareceu planejado. A mim pareceu um surto e me assustei com os caminhos que descobri.
Pois eu te falo meu amigo é essa sensibilidade que nos agonia. Esses sentimentos acerbados que vão nos roendo por dentro e fazendo do mundo um mar de dores. Sei muito bem que você é do meu tipo, do tipo que não sente pela metade. Isto de mais ou menos, meio cheio, meio vazio, não é do nosso acerto. Gostamos das coisas por completo dos sentimentos que vem do fundo da alma e transbordam em gozo ou dor.
Sei também que preferimos o gozo, que somos hedonistas e vivemos por prazer. É uma satisfação perceber que as pessoas que nos rodeiam o fazem também para beber um pouco dessa nossa leveza. Disfarçamos muito bem os momentos de peso. Não passar o peso pra frente também é um jeito nosso. Roemos a dor no fundo do quarto e exaltamos o gozo pelos bares.
Estou dizendo isso não por ser bom, talvez nem seja bom remoer estas coisas. Digo-lhe isso, porque sinto que o mundo precisa de mais seres iguais a gente. Pode parecer que me gabo e pode até parecer muita vaidade, coisa de ególatra. Só que olhando ao redor vejo um mundo bobo, burro e sem rumo. É inegável que estes sentimentos que carregamos e alimentamos com força nos fazem seres diferentes.
Não é porque paramos para contemplar a natureza, ou sentir o perfume das flores. Não é porque olhamos para o céu e sabemos quando vai chover. Não é porque dialogamos com as estrelas e sabemos o mapa astral de nossas amadas. Também não é porque estudamos Jung, Freud, Nietzsche, Lacan e sei lá mais quem… Muito menos porque sabemos história, política, sociologia e outras bazofias do nosso tempo. Tenho certeza somos seres diferentes porque sentimos com propriedade.
Lembra daquele papo sobre os mal humorados e pessimistas? Gente que vê o mundo com uma descrença enorme, que só vê as tragédias, o fim, e esquecem da viagem. Lembra que víamos neles grande erudição e chegamos a acreditar uma vez que só existe inteligência no pessimismo? Quanta bobagem, quanta gente remoendo os fins sem aproveitar os meios. Quando concluímos o papo sobre os mal humorados que fazem do mau humor uma marca engraçada, você me disse: cada um ri do que pode, uns da tristeza de ser, outros da leveza de poder ser. Eu nunca me esqueci disso e repito comigo sempre.
Olha Doutor, como já lhe disse, não tem motivo para eu estar aqui, vim porque insistiram muito, na verdade foi um complô: primeiro minha Mãe, depois minhas irmãs e por último minhas amigas. Todas acham que eu preciso de ajuda. Minha Mãe diz que eu estou louca mesmo e que isso é resultado da minha teimosia. Apesar delas falarem tanto, estou bem, me sinto bem e de bem com o mundo. O mundo é que não anda nada bem e não me entende direito. A única coisa que me fez vir é que estou tendo dificuldades para me relacionar e isso nunca aconteceu comigo antes. O Senhor acha que dificuldade para se relacionar é loucura?
Não se preocupe em estar louca ou não. Isso é muito relativo. Fale mais sobre esta dificuldade de relacionamento.
Nossa, isso é difícil. Sabe, não sou nenhuma santa… aqui pode falar de tudo, é segredo entre a gente, certo!? Pois então, não sou nenhuma santa, mas também não sou nenhuma depravada. Já fiquei com vários meninos numa mesma noite, mas era zueira, brincadeira de adolescente, sabe como!? Então, isso não é doença. Tive dois namorados, o primeiro namorado na época de colégio e o segundo no início da faculdade. Quando estava mais ou menos no meio do curso, resolvi terminar, queria curtir a vida e estava achando tudo muito chato.
Terminei com o Fernando e fui viver a vida, foi ai que comecei a ter problemas. Algumas amigas acham que sou atirada demais, algumas se afastaram. Até correu boato na faculdade de que eu havia virado puta. Ai começou a ficar chato. Toda festa que eu ia os caras já chegavam tentando me beijar, no início eu segurava a onda, mas depois que bebia, ficava com todo mundo, beijava a festa inteira. Mas não transava com ninguém. Não mesmo doutor, não consigo transar com um cara que acabei de conhecer, nem mesmo com um amigo, se não tem um clima não dá.
Olha, estou te contando isso e espero a sua idoneidade profissional. Se contar para alguém eu volto aqui e rodo a baiana. Pois então, nas festas eu passei a ficar com todo mundo, resolvi acabar com a hipocrisia de algumas meninas e fazia para provocar. Era ótimo, deixava todo mundo na fissura e depois saía fora. Só uma vez fui para a casa de um cara que tinha acabado de conhecer e transei com ele, não me lembro como foi, mas cheguei em casa no outro dia, numa boa.
Agora o problema é que conheci um cara. Este é diferente, sabe? Ele fala diferente, é inteligente, engraçado, muito educado, um cara legal. Só que não sei o que quero com ele, ao mesmo tempo que mexe comigo, também não sinto assim, tão atraída, parece que falta alguma coisa, sei lá… ai me enrolo toda, fico sem paciência… brigo com quem não tem nada a ver… outro dia dei um bolo nele sem mais nem menos e depois me arrependi. Sabe Doutor, pensando bem, vou bom vir aqui… Quero a sua opinião como homem, já tenho opiniões femininas… ah, nem precisa ser profissional, opinião de homem mesmo. O que faço? Fico com este cara? Namoro com ele? Como explicar que eu quero conhecê-lo, mas não quero namorar? Está vendo, eu sou normal, estas dúvidas é que são um saco.
Conheci o Querien, o Místico de Santa Luzia, no dia primeiro de janeiro de 2001, em Trancoso, lugar sagrado que ele escolheu para encontrar seus últimos discípulos. Na verdade eu não estava muito ligado em suas profecias, mas ele tinha duas amigas muito bonitas. Depois das férias fui conhecer o sítio onde ele mora na periferia de Santa Luzia. Sempre que ele vem a BH se hospeda em minha casa, final de semana passado esteve por aqui e me trouxe notícias.
Entenda meu nobre amigo, aquele terremoto seguido de um pequeno tsunami que aconteceu no Pacífico Sul, foi um happy hour. Iemanjá, Tupã, São Pedro, Thor, Shiva e Atlas comemoravam mais uma fase da globalização. Estavam definindo as metas da Associação Mundial de Entidades Místicas – Amem – que criaram recentemente e vai funcionar mais ou menos como a União Européia: eles se salvam e o resto que aprenda natação.
Sabe como é, o Caribe é legal, mas as praias de Samoa são mais astral. Lembra aquele lance do cinturão de fogo, das placas tectônicas? Pois então, o deslocamento das placas é uma movimentação da Amem. O conselho que se reuniu mês passado estava preparando os novos eventos climáticos, mas houve uns desentendimentos. São Pedro segurou a onda e até distribuiu um pouco das chuvas em Santa Catarina. Thor também estava de boa e sobraram raios até para Belo Horizonte. A tensão foi entre Iemanjá e Shiva. A primeira queria só lavar com água do mar, a outra já queria fazer uma limpeza geral, igual à de 2007. Sabe como é Shiva, tem que passar geral para recomeçar. Iemanjá veio com o papinho mais light, tentando apenas uma marola. Neste puxa daqui, empurra dali, sobrou para o Atlas que desequilibrou e quase deixou a terra cair. A sorte é que Tupã estava perto e segurou do outro lado, se não, estava a terra rodando por ai sem rumo.
Acho que o Atlas é o mais sensível deles. Sabe? Foi uma balançadinha de nada, um tapinha nas costas e quase que ele deixa a terra cair. Ah, se não fosse Tupã, nem sei. A criação da Amem é importante para equilibrar a representatividade das entidades. Agora quando há qualquer desentendimento entre as classes, um representante convoca: Amem que resolve.
Na década de noventa o Alexandre era auxiliar de serviços gerais em um escritório de contabilidade, ali, na esquina de Timbiras com João Pinheiro, alto belô. O expediente encerrava-se às dezenove horas e antes das vinte já estava formada a reunião no bar do irmãos, Chicão e Anderson Rolha. Além do pessoal da contabilidade também participavam da roda alguns moradores das redondezas. Do Ed. Miguelangelo, o Betão, o Túlio, o Dr. Cláudio e o Dr. Múcio, e do Ed. Jenny, meus irmãos, o Du, vizinho do segundo andar e eu.
A roda era democrática e os assuntos os mais variados, na pauta nunca faltava política, futebol, crimes, sociedade e cultura. O Alexandre além de cobrir o baixo belô era nosso correspondente especial na PPL – Pedreira Prado Lopes – a favela mais próxima e uma das mais violentas da cidade. Manso igual um curió, ele abria suas participações com manchetes: cês viram a batida que teve lá na avenida amazonas? Um moto boy, três carros e um ônibus do Barreiro.
Meu pai às vezes passava por ali depois do jornal nacional, tomava uma cerveja e ia embora. Apesar do papo bom, fazia pouca roda para dar exemplo aos filhos. Boteco não é lugar de bater ponto e ficar fazendo hora. Às vezes palpitava em algum assunto de política e sempre tirava sarro da cara de alguém. Espirituoso que é, sempre tinha um jeito de pegar no pé de alguém. Certa vez o Alexandre contava muito animado a ação da PM numa boca de fumo da PPL e meu pai só escutando, para depois concluir: bonito né, você fica dando sopa na beira da boca e uma hora ela te engole. Curió em boca de cobra é comida fácil. O pessoal gostou e riu, e ainda aproveitaram para aconselhar o intrépido repórter.
A roda no boteco era tão boa que começou a se reunir aos domingos de manhã. A resenha começava com os mais jovens contando da noite de sábado, depois os mais velhos contavam da noite das antigas e o Curió aparecia contando a noite na PPL. Num animado domingo de verão, muitas cervejas já tinham descido, a mesa estava alegre e meu pai chegou para fazer o aperitivo do almoço, justo na hora em que o Curió contava-me uma briga no buraco da Irene, um boteco da PPL. O caso esta emocionante e eu escutava com atenção. Meu pai não perdeu tempo e apontando pra nós, soltou: veja bem, vocês parecem irmãos, devem ser do mesmo planeta, podem dar as mãos. E o Curió teve seu dia de glória e abraçou meu pai: papai, papai, que bom que o senhor me reconheceu depois de tantos anos!
Até hoje o Alexandre me chama de “Mano”, minha Mãe é a “Mamazinha” dele. E meu pai, bem, o meu pai é o Senhor Alfredo, muito sério e de pouca brincadeira.
Encontraram-se na rua, esquina de aimorés com alagoas. Foi amor à primeira vista, os jardins da Igreja da Boa Viagem, o sol forte e o céu azul daquela manhã de inverno que já era primavera, formaram o cenário perfeito. Conheceram-se e nunca mais desgrudaram, viviam para cima e para baixo juntos. Naquele calor todo, no roça-roça, no vem cá que eu também quero, o Juvenal teve certeza: precisaria de uma casa.
Foi o Seu Juvenal quem tomou a iniciativa da construção. Dona Cristina ajudava no que podia, também não ficava atrás. Durante dias trabalharam com afinco e dedicação. Não gastavam tempo e pensamentos com mais nada além da casa nova. Na verdade, Dona Cristina já pensava em outra coisa, pensava na prole. No fundo, Seu Juvenal sabia disso e não comentava para não criar expectativa. Mulheres são muito ansiosas, cabe ao homem tranqüilizá-las, era a frase dele.
O casal prosseguiu trabalhando, voando toda manhã de um lado pro outro, na pressa da cidade grande. Um casal normal, mas com a dedicação e o companheirismo que são raros nos dias de hoje. O Seu Juvenal ralou muito para conseguir os materiais de construção, quem cuidou para que tudo saísse nos conformes foi Dona Cristina.
Agora, no meio da tarde, vem esta tempestade de ventos e trovões. Preocupei-me, por onde andarão Seu Juvenal e Dona Cristina. Fui correndo fechar a janela da frente e conferi na árvore, o ninho está lá, mas os moradores não. Será que fugiram para um abrigo mais seguro? Será que a construção vai resistir aos fortes ventos? Ainda bem que eles não precisam de luz, pensei antes de fechar a janela.
A chuva durou até as cinco e meia da tarde, o horário exato que Seu Juvenal e Dona Cristina voltariam para casa. Corri para a janela e observei o ninho, nada, nenhuma movimentação. Ainda bem que a prole só estava na idéia, não resistiria à ventania. Será que se eu colocar umas frutas aqui no parapeito eles vem comer? Será que se acostumam a viver aqui em casa? Posso arrumar um ninho para eles na minha samambaia. É, mas isso implicaria em acordar às quatro da manhã, hora que eles saem para a lida… Diabo, a prefeitura deveria ter um serviço de emergência para atender passarinhos que tem os ninhos alagados por chuvas destemperadas.
Ela é filha de Iansã, a dona dos ventos que abre as nuvens para os raios de Xangô e a tempestade. Quando chega revira tudo, coloca o mundo de cabeça para baixo. Sua presença é percebida por todos, ninguém passa imune. Teimosa, audaciosa, autoritária e dinâmica. Está sempre procurando algo para se ocupar, é cheia de iniciativa e determinação.
Ele é filho de Ossãim, o dono das ervas boas e más. Discreto, reservado e de pouca fala. Guarda segredos antigos, sabe como cultivar cada planta e cuidar das pessoas. É um sujeito atencioso, percebe o mal e sabe como evitá-lo. Não é de enfrentamentos ou rompantes e tem sempre uma carta na manga, uma saída secreta para os conflitos.
Ela se formou em Educação Física na UFMG e foi ser professora. Logo se cansou da vida rotineira e fez um mestrado em linguagem corporal. Estava feliz dando aulas de educação física de manhã e a tarde, a noite aulas de dança. Nos finais de semana acordava cedo, ia para o CEU – Centro Esportivo Universitário – pedalando, nadava, jogava futebol, vôlei e o que mais a convidassem. Era uma esportista nata, uma atleta vigorosa.
Ele formou em biologia na PUC e herdou a floricultura do pai no Mercado Central. Aliás, ele nasceu e foi criado na floricultura, conhecia cada planta e sabia todas as manhas de cultivo. Era um sujeito reservado, saía pouco, diversão para ele era pesquisar novas espécies e cultivar o orquidário que tinha no sítio. Todo final de semana ia para Lagoa Santa e passava do nascer do sol ao cair da tarde, cuidando da enorme estufa.
Eles se conheceram numa cachoeira na Serra do Cipó. Era início de primavera, quando Mamãe Oxum enche os rios e faz tudo mais verde. Estavam felizes, tinham escolhido curtir um final de semana diferente e na energia das matas, sentiram que haviam nascidos um para o outro. Foi paixão a primeira vista, trocaram telefones e passaram a se encontrar quase que diariamente.
Foi um verão tórrido, ele aprendeu a nadar e descobriram o gosto comum pela bicicleta. Saiam de BH para Lagoa Santa toda sexta a tarde e por lá passavam o fim de semana. Cachoeiras, estufa de flores, passeios sem fim e uma paixão abrasadora, do tipo que incendeia tudo.
Quando o outono chegou, Ela desarrumou, achou que estava tudo certo demais, bonito demais, normal demais, perfeitinho demais. E fez vendaval, trouxe as chuvas de março, revirou tudo de cabeça para baixo, sacudiu árvores e espalhou as folhas por todos os lados. Foi-se embora antes do inverno chegar e disse a ele: não me procure mais, o que vivemos foi um engano. Ele pacientemente se abaixo e começou a recolher as folhas que estavam espalhadas pelo chão. No fundo ele sabia, eram um ótimo adubo para a florada da próxima primavera.
Por aqui é comum o pessoal reclamar que a cidade não tem opções de lazer. Depois dos vinte e cinco já cansamos daquele eixo;Obra, Mari Hell, Up, Velvet. Às vezes aparece alguma festa para variar, um show, ou algum lugar novo como a MP5 lá na Raja Gabaglia e agora a Démodé na Prudente de Moraes. Estas são as casas alternativas, que tocam rock, eletrônico, soul, funk, punk, dependendo do dia. Existem também as boates da moda, que atualmente não faço a menor idéia de quais sejam. Sei que O Máscaras é uma boate da moda desde mil novecentos e oitenta e tal.
E dizem que na cidade não há opções. E os cosmopolitas começam a reclamar da roça grande que é BH. Todo dia que eu saio encontro as mesmas pessoas! Esquecem um detalhe importante, este cenário não é a cidade, é a regional centro-sul. Um gueto onde a classe média se espreme e tem certeza que não existe vida fora dali. Alguns descolados arriscam ir para a zona leste e curtem o Deputamadre, o Paco Pigale e o Sobrado de Santa Tereza, na praça principal do bairro.
Há quatro anos aconteceu um fato interessante: o pessoal alternativo descobriu o baile da saudade. Um baile funk, que resiste há mais de trinta anos tocando o melhor de James Brow e seus asseclas. Onde os dançarinos comparecem de terno, gravata e sapato bicolor, e as damas, de calça fusô, blusa lurex e salto. Atualmente o baile acontece na Avenida Civilização, divisa entre Venda Nova e Justinópolis, no extremo norte da regional norte, e já ganhou um apelido; baile da savassi, devido à invasão dos alternativos da zona sul. O movimento aumentou tanto que os organizadores criaram outra data e o tradicional segundo sábado do mês é dedicado aos novatos, que são sempre bem-vindos.
O baile segue tradições muito sérias, pede-se que as pessoas se apresentem a caráter, bermudas são um vacilo e entre as três, e as quatro da madrugada é hora da música lenta. Aproveito o momento para tomar um ar lá fora e conversar com o pessoal. Conheci alguns black powers grisalhos, avós e avôs que já ferviam na pista antes d’eu nascer e parecem saídos de filmes. O Dener é um deles, sempre sorrindo, contando casos e fazendo o papel de relações públicas dos blacks. Quer saber como eram os agitos em BH na década de setenta? Pergunte a ele. Quer aprender a dançar com classe e elegância, pare e observe.