Acaso acontece.

Fantasmas

agosto 1, 2012
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Por motivos inexplicáveis a lembrança dela retornava a sua mente. Podia ser um cheiro, um gesto, uma música e ela se tornava presente. Aquela mesma presença forte de sempre. E ele precisava fazer um exercício enorme para lembrar os porquês daquele termino. Explicava para si mesmo as mesmas coisas de sempre. Concordava consigo mesmo que aquela havia sido a melhor opção. O fim.

Uma amiga havia lhe aconselhado: arrume outra namorada. Mas quem disse que isso acontece assim, da noite pro dia? Vou ali à esquina arrumar um novo relacionamento. Vou ali à padaria buscar uma namorada. Não, não era assim, nunca foi. E ele acabava se lembrando da noite louca e inusitada que a conheceu, da chuva que caiu e os isolou do resto da turma. Do beijo molhado e da fuga alucinada pelas ruas da savassi para o refúgio dos dois.

Queria ter uma memória seletiva e apagável, algo que pudesse superar com um clic. Não, não queria, mentia para si mesmo. Tinha na memória momentos fantásticos com ela, coisas que outros casais jamais fariam. Ele nunca mais iria conseguir uma companheira que animasse subir a Serra do Curral de madrugada para ver o sol nascer bebendo vinho barato e cantando musicas depressivas. Ele nunca encontraria uma parceira de sinuca tão boa quanto ela e que freqüentava o Clubinho do Marcelo, ali na rua da Bahia com Tupinambás, como se fosse um bilhar de luxo.

A angustia lhe dominava por completo. Voltava ao exercício de recordar os motivos do termino. Ela não gostava das músicas que ele compunha, nunca foi aos ensaios da banda e “legal” foi o maior elogio que recebeu dela. Também não dava para viver com tamanha depressão, já bastava a dele. Apesar de que os momentos de euforia, quando a bipolaridade batia forte, eram os melhores. As eternas chapações e as eternas ressacas. Nunca mais.

Idiota, não tem como voltar no tempo, aceite, esqueça, deixe ir. O tempo não é seu. Foram as respostas que lhe vieram à cabeça quando pensou em ligar para ela. Não, não ligaria de jeito nenhum. Foi ele quem terminou, foi ele quem disse que não dava mais e agora seria estupidez tentar uma volta.

Lembrou dos amigos em comum, amigos que herdaram um do outro e que agora conviviam com certa freqüência. As amigas às vezes davam notícias dela, iam sempre ao teatro ver qualquer coisa no Galpão, igual na época do namoro, nem precisava saber o nome da peça, iam porque era no Galpão e sempre rola algo interessante. Os amigos dela que ele herdou, bons companheiros de Mineirão e depois, quando o estádio fechou para a reforma, era com eles que ia para a Arena do Jacaré em Sete Lagoas.

Bom, vai ver que é isso que deve ficar, os amigos, as heranças que não se pode apagar. Foi melhor terminar, repetia novamente como um mantra. Era bom demais para ser verdade e caso ele não inventasse algum desacerto, certamente ainda estariam juntos até hoje. Mas ele insiste em imperfeições e caminhos tortos e hoje entende que o que mais lhe incomodava era a perfeição do relacionamento.


Quando o inverno chegar.

julho 19, 2012
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Quando estava na terceira série foi acometido pela primeira paixão platônica, a professora. O último dia de aula foi uma tortura, o caminho para casa em prantos. Na volta às aulas tentou freqüentar a turma dela e foi preciso a intervenção da diretora. Ele foi categórico: minha Mãe que pediu a professora para me passar, eu tomei bomba, não fiz nenhum dever de casa! Não adiantou. Chorou de raiva! Não adiantou. Sem ter como mudar a sua sina, aceitou, mas todo dia arrumava uma desculpa, um jeito de ver a professora amada.

Até que chegaram as festas no meio do ano e a preparação para a quadrilha. Ao escolher os casais a professora nem imaginava o que poderia acontecer. Já no segundo dia de ensaios ele estava completamente apaixonado. No recreio, enquanto os amigos queriam jogar bola ou brincar de pique esconde, ele queria conversar com ela. Fez muitos desenhos, escreveu as primeiras poesias, tudo para ela. E o fim do ano chegou novamente, e pior, agora cada um iria para uma escola diferente. Passou o mês de novembro fazendo um desenho para ela, um Garfield em nanquim com bico de pena, ficou legal demais. Entregou o presente cheio de carinhos, recebeu um obrigado e mais nada. Ela saiu, foi embora sem nenhum beijo. Ele não agüentou e foi até ela, tomou o desenho, rasgou, deu um tapa e um empurrão.

Em casa tentava justificar para a Mãe porque havia batido na coleguinha que tanto gostava. Depois de explicações confusas, não conseguia explicar o sentimento de desprezo, ouviu o conselho: mas olha, entendi que ela não foi legal com você, você esperava outra atitude, esperava reconhecimento, mas nem sempre é assim e nestes momentos o melhor é deixar quieto, deixar passar e tentar manter uma proximidade. Do jeito que você fez ela nem vai querer mais te ver. Se tivesse ficado tranqüilo, poderiam se encontrar em outra oportunidade.

Ele fazia um paralelo entre as duas primeiras paixões, ambas com finais traumáticos. Concluía que o fim da paixão com a professora foi menos doloroso, foi passando, enquanto a outra foi um rompimento violento. Anos depois percebeu que em outra paixão, sendo desprezado novamente, resolveu manter-se por perto, discreta e silenciosamente. A viu começar e terminar meia dúzia de namoros, amava calado, por acreditar que já havia dito tudo. A proximidade era o jeito de desfrutar um pouco daquela mulher que ele amava, mas como era doído estar junto pela metade.

Esperava passar, mas daquele jeito, com aquela proximidade fica tão mais difícil. Foi do nada que surgiu outra platonice, muito mais complicada e desastrosa. Com muitos outros pretendentes e um jeito de zombar de todos eles. Ela era poderosa, firme, decidida, inteligente, articulada e linda. Ele se perdia admirando-a. Sabia exatamente onde estava cada coisa que gostava nela, sentia uma proximidade de pensamentos, conseguia concluir as falas dela, parecendo ter intimidade.

Mais uma vez sobrou e sem chance de ao menos falar a ela da completude de seus sentimentos. Talvez adiantasse pouco, ela parecia totalmente alheia a seus gracejos, parecia ignorá-lo por completo. E ele alimentado um tanto de sentimentos, fantasiando uma vida a dois com ela, planejando conhecer a família, a cidade onde ela nasceu e ter filhos. E ela nem sabia e ela não podia, semana passada marcou o casamento para setembro, início de primavera, ele será até convidado. Será um longo inverno remoendo o que disse, o que não disse, o que poderia ser, o que não foi, o que é, o que não é, inventando falhas, remoendo posturas e se culpando por não ter aquele perfil sedutor de galã de cinema.


O casal o amante e o chocolate.

julho 6, 2012
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O relacionamento do casal não ia muito bem, era evidente. Ele tentava manter discrição, o segredo da paixão. E era difícil se controlar quando via os dois discutirem por qualquer motivo. Quando a relação não vai bem, qualquer papo vira discussão e daí para um bate boca é um pulo. E foi o que aconteceu naquela noite. Não era nada sério, nenhuma gravidade, mas eles discutiram feio. Ele ficou meio feliz e meio triste, gostava dela e não queria vê-la naquela situação.

Pensou em se declarar, em dizer a ela: saia dessa e venha comigo, sou mais divertido, mais interessante e sei o que você gosta, sei o que gostoem você. Masnão deu conta. Pensava demais, pensava nela, pensava nele. O amigo não entenderia a sua paixão pela mulher dele. E se ele explicasse que já a conhecia e era apaixonado muito antes dele. Que foi um contra-tempo que permitiu a ele chegar junto na frente. Não, seria muito complicado, muito doloroso. Ele não saberia que palavras usar.

Repensava e chegava à mesma conclusão. Irei acompanhar a distância e quando eles terminarem chego junto. Não, melhor esperar um tempo e não ser tão impulsivo. Uma coisa era certa, aquele relacionamento não iria durar muito. Como realmente não durou.

Naquela mesma noite, quando foram embora eles terminaram. Ele só ficou sabendo dias depois. Ficou alegre demais e não resistiu ligou para ela. Foi uma surpresa, ela não estava triste, pelo contrário estava alegre. Convidou para um filme no Belas Artes. Ela recusou. Deixaram em aberto um encontro para o sábado à tarde, uma cerveja no Seu Orlando seria uma boa.

Ligou para ela no sábado pela manhã e combinaram às quatro da tarde no Seu Orlando. Ele pensou em levar flores. Não, seria empolgação demais, poderia assustá-la. Quem sabe um chocolate? Um chocolate é legal, discreto, não demonstra muita coisa e também não deixa passarem branco. Chocolate, toda mulher adora, chocolate.

As três e meia já estava no Seu Orlando com um chocolate e o coração aos pulos. Pediu uma cerveja e assentou do lado de fora. A tarde de outono estava linda e havia uma magia diferente no ar, ele respirava fundo. É hoje. Esfregava as mãos e viajava nos pensamentos. O que iria dizer, como se declararia e tudo mais. Depois imaginava as reações dela. Bem, dependendo da reação tinha que ter outras palavras. E se ela dissesse não? Não, isso não iria acontecer… era um risco a se correr. Melhor nem pensar nessa possibilidade.

As quatro e pouco ela chegou, linda como sempre e cheia de sorrisos. Ele delirou, sentiu que seus olhos brilhavam. Depois de se cumprimentarem foi lá dentro buscar um copo para ela e já pensava em como chegar no assunto, como se declarar, foi quando ela começou o papo.

– Vai vir uma pessoa aqui que faço questão que conheça. Mas tem que ser discreto.

– Como assim?

– Ah, depois que terminei com o Dani fiquei meio baixo astral. Ai na segunda fui ao Forró da Casa. Você não vai acreditar. Encontrei um cara que eu era apaixonada na época da faculdade e ele nem me dava bola. Foi um troço, sabe? Acabamos ficando na segunda e estamos meio de rolo… você acredita? Ah e não comente com ninguém quero deixar a poeira abaixar primeiro.

– Mas você é rápida, heim?
– Ah, que nada. E este chocolate? É pra mim?


Carta para um ex-amor.

junho 29, 2012
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Sabe mulher, esse tempo todo longe de você ajudou a clarear a minha vista. Hoje entendo melhor o nosso final, aliás, entendo o nosso começo e nosso meio. Aqueles que nos rodeavam fazem tanto parte da nossa história que não dá para negar suas influências em nossas vidas. Lembrando de alguns detalhes pensei em lhe escrever meus entendimentos para a sua reflexão e amadurecimento. É, continuo o mesmo arrogante que acha que pode ensinar algo a qualquer um.

Pois bem, o seu primeiro engano é confundir agressividade com virilidade. Eu posso ser bravo, sem ser agressivo, o meu vigor não vem da imposição machista sobre a mulher, o meu vigor vem do amor que tenho a vida. Não é que eu seja um homem feminino, muito menos que tenha uma sensibilidade diferente, todos somos sensíveis. O que acontece é que não desejo e nem preciso me impor sobre ninguém.

O segundo engano é acreditar que a grana resolveria tudo. Demorei a perceber o quanto o dinheiro era importante para você. Talvez tenha sido exatamente ele, o dinheiro, que fez com que você me aceitasse depois de tanta insistência. Aliás, estou aprendendo a ser mesmo persistente, tem coisas no mundo que é preferível abrir mão que lutar por elas. Pena que só descobrimos isso depois que as conquistamos.

A terceira questão é a forma como deixamos os amigos entrarem em nossas vidas. Sempre fui um livro aberto, sempre me expus demais, sei que o erro é meu. Mas você não precisava disso para poder me ridicularizar com comentários pequenos. Aquele dia que discutimos na casa da Juliana foi exatamente por isso, apesar de nós dois não nos lembrarmos no dia seguinte o real motivo da briga. Demorei meses para conseguir lembrar da sua “brincadeirinha” com a minha “sensibilidade” exagerada.

A quarta questão vem da sua casa, sua Mãe tem sempre razão, seu Pai também. Sendo assim lhe previno: não case novamente. Ou espere que eles morram para se juntar a outro. Por mais experiência que nossos antepassados tenham é preciso que te lembre: os tempos mudaram e nem tudo que era perfeitinho no passado continua hoje.

 

A quinta e última coisa que tenho para lhe falar é sobre o seu corpo. Você é linda, gostosa, gorda ou magra, acordando ou maquiada para uma festa, o que é horroroso em você é esta paixão pela ditadura da beleza. Esta busca pela perfeição é uma falácia dos vendedores de cosméticos e você compra a ideia sem muito pensar. Nenhum creme é tão bom para a pele como um carinho, nenhum tonificador pode esconder suas rugas como um pouco de auto-estima.

Você deve estar estranhando em receber esta carta e lhe digo que ela não é para você apenas. Esta carta é para mim, um desabafo, um pingo nos “is” para que mais leve eu possa continuar o meu caminho. De preferência com uma companheira que entenda que andar ao lado é mais que andar adiante. Um beijo, do seu ex-amor.


Filósofo de Boteco.

junho 19, 2012
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– Amar é açoitar o corpo e o espírito num martírio infinito.

– Desce mais uma para o Filósofo, Joaquim!

E o garçom servia mais uma dose para o Filósofo que tinha ao seu redor uma turma de estudantes.

– O amor não correspondido é como um aleijão na alma. Eterno.

– Outra dose, Joaquim!

A turma adorava o Filósofo e desconhecia por completo sua história, ou a realidade da sua dor. Para eles era apenas um aposentado desiludido que virara alcoólatra. Todo dia quando saiam da aula passavam pelo Tonel da Pinga para comprar cigarros picados e nas sextas tomar umas cervejas, foi numa dessas que se conheceram. Os estudantes falavam de suas conquistas e o Filósofo começou a zombá-los.

– Mulher não gosta só de dinheiro, ou de sexo, ou de postura. Mulher gosta de tudo, e tudo você nunca vai ter para da-la. E não adianta compensar uma coisa com outra.

– Mas e se a mulher amar o homem? Ela fica com ele mesmo na falta, uai.

– Fica, mas por pouco tempo. Porque o amor é uma invenção dos homens, o que segura mulher e homem juntos são relações de troca, dependências: financeiras, afetivas, sociais… Tanto é que hoje em dia ninguém mais precisa ficar amarrado ao outro, faltou, procura outro.

O álcool em excesso fazia o Filósofo delirar e em seus delírios se via em um dos estudantes. O mais franzino deles, o Diogo, era um dos que mais gostava dos papos e sempre recebia frases especiais que muitas vezes deixava-o pensativo. Um dia quando já iam embora, todos bêbados, o Filósofo pediu:

– O Gambiarra, me ajuda a chegar ali em casa.
Até então o Diogo não tinha apelido e ninguém entendeu o que era gambiarra.

– Você ai, você mesmo, você é uma Gambiarra, não foi feito direito.

– Mais uma pinga para o Filósofo! Ahe Diogo, agora você tem apelido: Gambiarra!

– Ajuda, aqui!

O Filósofo passou o braço pelo pescoço do Gambiarra e os dois saíram pela rua Sergipe. No caminho ele foi explicando o motivo do pedido.

– Olha rapaz, vejo você entre estes todos e às vezes acho que sou eu. Por isso lhe pedi para me ajudar hoje. Preciso lhe dizer algumas coisas. Nunca se apaixone! Ou melhor, esqueça sua sensibilidade. Esqueça seus sentimentos. Homem não sente. Homem não chora. Homem não demonstra fraqueza, medo ou insegurança. Homem é rocha.

– Como assim?
– Esta coisa moderna de homem sensível, delicado, compreensivo, é uma babaquice. A mulher pode até gostar inicialmente, depois enjoa, acha chato. Mulher gosta mesmo é de troglodita, de homem que as coloca no lugar. Em todo relacionamento homem X mulher tem que ter submissão. Nunca as trate de igual para igual. Por mais avançadas que sejam não resistem a um peitoral sarado, um carro bacana, uma roupa de marca ou um sorriso de cafajeste. Torne-se um bonitão, malhe, estude, compre roupas, carros, uma casa, ande apresentável. Seja cafajeste, não seja sensível. Se conseguir isso pode até ser um ignorante que conseguirá as mais interessantes. Seja um deles, se não quiser ser um dos meus: um farrapo de sentimentos desperdiçados.


Mutante X Dom Juan, a batalha!

maio 23, 2012
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Ele tinha o que toda mulher gosta: segurança. Esta foi construída com muita alto estima, coragem e cara de pau, pois a sua estética era completamente inviável. Baixinho, barriga de chopp, magrelo, meio zarolho e com uns óculos fundo de garrafa, era para nem querer sair à rua. Sofreu bulling por muito tempo, até perceber que poderia usar toda a sua incompletude a seu favor. Seguro de si e certo de que as palavras valem mais que a imagem, mudou de zerola para pegador nos primeiros semestres da faculdade.

Os colegas que lembravam daquele sujeito tímido e escondido no fundo da sala acompanharam a evolução e não acreditavam no que viam. Daí veio o apelido: Mutante. Foi num dia a toa que lançou o desafio para um amigo que se julgavam o Dom Juan do Anchieta. Cada um escolheria uma mulher para o outro e ganharia quem conseguisse conquista-la na festa do 13, tradicional baile festivo da Comunicação da PUC.

Chegaram cedo à festa e se colocaram em posição estratégica para fazer a escolha. O Dom Juan foi rápido e escolheu a Ju Mendes do 8º período para o Mutante cortejar. Missão classificada como impossível, pois estavam no 7º período e todo mundo sabe que as universitárias não ficam com os ex-calouros. Ele foi mais sutil e escolheu a Beth do 5º período para o Dom Juan.

– Que isso cara?! Assim fica fácil demais! Você não sabe que a Beth é afim de mim desde que entrou na faculdade?

-Sei sim, por isso quero ver.

Partiram cada um para o seu lado e um grupo de auditores os seguiu. Algumas práticas estavam proibidas, entre elas: agarrar a força e pagar bebidas. Para a surpresa de todos o Dom Juan começou a enfrentar sérios problemas, a Beth simplesmente o ignorava. Ele pensou que havia armação, que o Mutante havia avisado para ela antes, se descontrolou, chamou os auditores e foi atrás do outro.

Quando o encontraram tiveram a surpresa. O Mutante já estava aos beijos com a Ju! Interromperam para uma breve audiência onde inquiriram sobre a possível armação. Depois de um longo interrogatório e de constatarem que realmente não havia armação, deixaram que continuasse com a Ju Mendes e o Dom Juan foi continuar os trabalhos com a Beth. Até o final da festa a situação foi a mesma e muito puto da vida Dom Juan aceitou a derrota.

Na segunda feira só havia um comentário no Prédio 13 da Comunicação: a festa! E Dom Juan não agüentava de curiosidade, queria saber o que o amigo havia falado para a Ju Mendes.

– Falei o que falo para todas. Que ela é linda e que eu estava muito afim de ficar com ela. De conhecê-la…

– Mas só isso?

– Não é o que se fala, é como se fala, o clima que se cria. Aprendeu?

– Falou então! Agora você ta me dando aula? Fala sério Mutante!

– Mais uma dica. Preste atenção em quem está ao lado da sua pretendente.

– Como assim?
– Você viu que junto a Beth estava a Dani Costa? Com quem você já tinha ficado?

– Putz! Foi isso, a Dani buzinou no ouvido dela. Ah, você armou demais.

– Armei nada, na hora nem pensei nisso. Na verdade achei que você não teria chance com a Beth porque sempre a ignorou. Só depois e por causa do que aconteceu comigo é que entendi o que estava rolando com você.

– É, vacilei, devia ter pensado nisso e vetado a sua escolha…
– Você não viu quem estava com a Ju?

– Não vi, quem era?

– A Lu Dias.

– E daí, ela gosta mais de meninas do que de meninos…

– Bem e daí, que ela convidou a gente para continuar a festa na casa dela.

– Mentira.

– Pois é…

– E ai o que rolou?
– O que rolou, rolou, o resto deixo para a sua imaginação.


Jovens Revolucionários.

maio 16, 2012
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Eles se encontraram no início da noite de sexta no Marguerita, um boteco com localização privilegiada, rua da Bahia em frente ao Museu Inimá de Paula. René, o garçom que os trata pelo nome já chegou com a cerveja gelada e as brincadeiras costumeiras: vocês estão sumidos! Estavam presos? Casaram? Cada um deu a sua justificativa. O Contagiante, assim conhecido por morarem São Gonçaloda Contagem das Abóboras, justificou com a distância e o recentemente casamento. O Místico de Santa Luzia explicou que a conjunção astral não estava adequada para saídas. E o Dos Corres alegou que estava precisando fortificar seus pontos no Baixo Belo.

Amigos desde o colegial, quando estudaram no Colégio Municipal, guardam uma cumplicidade de longa data. Às vezes não precisam nem da fala, basta um gesto ou um olhar para que os outros entendam o que se quer dizer. Também usam códigos e gírias particulares que remetem a casos antigos, pouco explicáveis, ou melhor, inexplicáveis. Estudaram juntos da 5º série ao 3º colegial, foram do Grêmio Estudantil, revolucionaram o Colégio conseguindo a liberação do uso de qualquer calçado e calça para assistir aula, quebrando a obrigatoriedade do uniforme, que ficou reduzido à camisa. Os feitos do trio são longos e diversos, incluindo festas, vadiagens, viagens, pequenas revoluções e uma banda de Punk Rock Psicodélico.

Naquela noite estavam envolvidos numa atmosfera de nostalgia e depressão. O Dos Corres até sugeriu um alcalóide para mudar o astral. Foi repelido pelos demais, queriam mesmo é curti a deprê. Cada um tinha a sua motivação para a desilusão com o mundo. Nada fazia sentido, a vida se desenrolava sem emoção e fazer grana era a principal obrigação. Não estavam quebrados, tinham uma vida tranqüila, mas a angustia vinha quando pensavam no futuro, na família e nos possíveis filhos. Não dá para criar um filho com dignidade gastando menos de mil reais por mês. Só o Dos Corres discordava, tinha planos para revolucionar a educação na cidade colocando os filhos para estudar em escola pública e interferindo diretamente na gestão destas. Deve ser por isso, segundo o Místico, que nenhuma louca quer se casar com ele, ou ao menos namorar. E deixou o machismo enrustido aflorar: Mulher quer conforto e segurança, você só pensa em aventura e curte a adrenalina da insegurança. Foi rebatido na hora: Todos querem segurança e conforto, homens e mulheres, só preciso encontrar uma mais disposta a luta.

Depois da vigésima cerveja já estavam entrando em outro universo e foi o Contagiante que falou: o problema não é grana, o problema é que não consigo ser feliz. Cantaram juntos Wander Wildner: Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro… Preocupados com o amigo os outros dois tentavam descobrir de onde vinha aquela falta de felicidade. Entenderam que alegria ele tinha, era coisa de momento, mas felicidade faltava.

Depois de muita discussão, ou melhor, de elucubrações intermináveis dentro de variantes determinadas e outras abstratas, concluíram: a infelicidade está na impotência humana. E o Dos Corres fez um adentro: nem todos admitem que são impotentes, a maioria sobrevive do Viagra social: trabalho nobre, rotina massante, alegria do carro novo, do apto financiado e do novo negócio.

Terminaram a noite no Utopia, ali na Raul Soares e começaram o dia no Mercado Central, onde depois de alguns discursos conseguiram fechar a loja de eletrodomésticos recém inaugurada. Não era mais nostalgia, era mais uma pequena revolução. Quem assistiu a cena aplaudiu os revolucionários que lutavam pela manutenção dos pequenos comerciantes frente ao avanço das mega-empresas.


Outros Carnavais.

maio 2, 2012
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Ezequiel acordou no meio da tarde sem entender onde estava e nem como chegou até ali. Era um quarto de mulher, pode perceber pela decoração e pelo cheiro, mas quem era ela? Como estava só decidiu por lá ficar e dormir um pouco mais… não demorou muito, talvez um cochilo e foi acordado com carinhos no cabelo e um beijo no rosto. Nem quis abrir o olho, somente abraçou e rolaram na cama. O riso dela era ótimo, o abraço, o cheiro. Mas e se … Como era mesmo o nome dela? Putz, não vai dar para ficar o dia todo do olho fechado.

A surpresa lhe chocou! Ela era, a platonice de outros carnavais se embolando na cama com ele, no quarto dela, com o cheiro dela, não, aquilo não era verdade, só podia ser um sonho. Lembrou de um sonho em que disse para a mulher: você é um sonho. Ao que ela respondeu: sim, então aproveite. Por via das dúvidas era melhor manter em suspensão, se for sonho, que seja o mais real possível. Começou a beijá-la lentamente, a partir da nuca e foi descendo ora de olho aberto, ora fechado, em quase transe.

Quando terminaram ela levantou sem nenhum romantismo, muito prática e direta. Vou tomar um banho e depois tenho que ir trabalhar, faz um café pra nos. O pó e o coador estão na última porta do armário lá na cozinha. Na geladeira tem pão, fruta e leite, se vira! Ah e coloca duas fatias de pão preto na torradeira para mim. Falou e virou as costas, como uma patroa dando ordens. Ele abraçou o travesseiro e respirou fundo para levar o cheiro dela, levantou e foi cumprir as ordens.

Ela chegou na cozinha secando os cabelos e já vestida.

– Olhe, não fique chateado comigo, mas ontem lhe disse que iria trabalhar e já são 3 horas da tarde, hoje é sábado de carnaval e tenho que fotografar a folia em Sabará, Nova Lima e Santa Luzia.

– Quer que eu vá com você, pra te ajudar?

– Pelo visto você não se lembra muito de ontem, né!?

– Lembro, nos encontramos no Bloco do Beijo Elétrico ou Bloco do Amor, lá na praça da savassi…

– Pelo menos do início você lembra… mas preciso ir, vamos?
– Nem sei pra onde ir.

– Uai, você não disse que queria ver o Bloco do aPROAch no Brasil 41. Te deixo lá.

Seguiram pela cidade vazia, sábado de carnaval em BH e chegaram a outra cidade. Definitivamente o carnaval estava transformando alguns bairros, ruas, esquinas e conceitos. Talvez em algum passado já tenha sido daquele jeito, talvez em algum bairro sempre fora daquele jeito, mas por ali era inédito.

Despediram com carinho, mas ele sentiu que era o fim, que só ficaria com aquele gosto e que não haveria outro dia. Ficou parado na esquina vendo o carro dela sumir contorno abaixo. Depois se virou para a Praça Floriano Peixoto, onde o Bloco da Praia e outros que se juntaram a folia chegavamem apoteose. Resolveuesquecer a manhã e se entregar a tarde.

Passou pelos foliões e foi até o Brasil 41 onde Baiano, Daniel, Trota, Sara, Pedro e outros músicos agregados tiravam os primeiros acordes. Com uma latinha na mão ficou a contemplar e a pensar. Este é o carnaval de rua de BH! Se Dodô e Osmar vivessem por aqui com certeza era nessa folia que eles estariam. Guitarras, baixo, sanfona e bateria fazendo rock-samba-axé-frevo-ou-algo-que-eleve-corpos-e-mentes. Entrou no ritmo e quando já estava entregue recebeu um abraço duplo, um beijo duplo e se viu nos braços de Frida Calo e Amy Winehouse.


Macumba carnavalesca

abril 4, 2012
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Na sexta-feira véspera de carnaval o terreiro de Pai Blisset de Obatalá estava movimentado. Um entra e sai danado, de gente e coisas de carnaval e benção. O terreiro havia virado barracão de escola de samba, ou melhor, do Toca Raul Agremiação Psicodélica. E para o sábado estava programado o batizado da Mosca, símbolo do Bloco. Além disso, o Pai Blisset daria uma benção especial a todos os foliões. Velas, charutos, incensos, banhos de ervas e amuletos de sorte foram separados para a manhã de sábado.

Junto com os primeiros raios de sol Pai Blisset começou as funções; um caldeirão de água fervendo para fazer banho de sete ervas abre caminho, incensos indianos, água benta, velas e charutos acessos. Lá pelas dez horas os foliões começaram a chegar e logo já recebiam um passe de abre caminho e umas baforadas para espantar Exu Tranca Rua. “No passa nada. So ay amor! E nada tiemes.”

Ao meio dia em ponto, com o Toca Raul Agremiação Psicodélica reunido, saiu o cortejo em direção a Igreja da Boa Viagem. Na porta da Igreja outros foliões já esperavam pelo momento transcendental carnavalesco. Os padrinhos, Raul incorporado e Gene Simmons em entidade, pegaram nos braços a Mosca. Pai Blisset começou o ritual falando das energias gracinhas para o carnaval, em seguida evocou entidades de todos os cantos do planeta e sobre as bênçãos de Plaft Pluft Zumm, ou algo parecido, aspergiu banho de sete ervas sobre a batizada para em seguida abençoar a todos aos desejos de: Booooooaaaaaaaaaa Viagemmmm!!!

Os abençoados entram em transe carnavalesco e seguiram para a Praia da Estação onde o ritual tinha novos passes.  Descendo a Afonso Pena foram abençoando a todos, desceram Bahia como um verdadeiro Afoxé e entraram na Andradas como uma Escola na Sapucaí! Na praça, cercada pelo prefeito que gosta de segregar, os portões estavam abertos. Foi Pai Blisset quem disse dias antes: pode fechar os caminhos, mas nos vamos abrir!

No meio da Praça Praia já havia chegado vários blocos para o grande encontro com o Bloco Da Praia. Da Guaicurus veio o Então Brilha com seu carro alegórico sonorizado! Da Carlos Chagas o OcupaBH e Anos formaram outro bloco. Do Instituto Helena Greco saiu o Liberdade Ainda Que Agora, Batuque para Zumbi, um bloco sujo. Do Eldorado saiu o Bloco dos Dourados com muita purpurina. De lugares indeterminados, por toda a cidade, saiu o Fora Lacerda, com um bonecão a cara do prefeito. Todos reunidos em confraternização e grande estase, como deve ser uma festa de rua, livre e para todos. Logo foi formada uma fila de foliões para receber passes, com toques de ramo de manjericão em banho de sete ervas abre caminho.

Com todos os blocos presentes o cortejo saiu para a tradicional lavagem das escadarias da PBH. Por onde passavam iam encontrando mais foliões, moradores de rua, comerciários que acabaram de sair do trabalho, porteiros, vigias e desavisados em geral iam entrando no cortejo e confraternizando com a multidão. Em frente ao Espanca banho de mangueira com o Chapolim Colorado no comando. Hei Chapolim joga água em mim! Ouvia-se em coro. Chegando a prefeitura começaram os trabalhos, Pai Blisset reuniu um grupo de abençoados para juntos lerem o Manifesto Macumba II, uma homenagem ao prefeito mentiroso. Para que todos pudessem ouvir, os que conseguiam escutar repetiam em coro para os demais, transe coletivo.

Após a leitura do Manifesto, Pai Blisset seguiu com outras entidades para a lavagem das escadarias, benzeu, rezou, pediu a todos os Santos, e escutou uma resposta divina: ele ta lascado, nos estamos junto e misturado. Era São Pedro, que tinha ido fazer uma visita a Iasãn para garantir o carnaval sem chuva e estão de olho no Prefeito mentiroso.

O caminhão pipa chegou para ajudar na limpeza e ainda refrescou os foliões que banhavam em alegria. Sentindo a força do momento e o dever realizado, Pai Blisset de Obatalá se retirou a Francesa, deixando para os foliões muita energia gracinha.


O Folião e a Tetê.

março 26, 2012
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O domingo pré-carnaval amanheceu lindo, azul e radiante. O folião não viu a manhã, só acordou no início da tarde, resultado da maratona do dia anterior no Mama na Vaca. De pé e sem alternativa, tomou um banho ressuscitador, um café forte, pão de sal e alguma fruta. Pensou em ligar para os amigos e ver quem já estava de pé e disposto a rebater. Desistiu depois de três tentativas e mandou mensagens para os outros.

Decidiu seguir o rumo certo: Santa Tereza. Chegou à praça e nada, o bloco estava marcado para as 14h. e ele temia chegar e o bloco já ter saído. Estão atrasados também, melhor assim. Desceu a rua Mármore até a casa de outros dois foliões do Toca Raul, o sub-bloco mosca na sopa. Depois de alguns gritos no portão. Oh Comédia! Oh Pinico! Os amigos apareceram com cara de ontem e reclamando da gritaria.

O portão abriu, subiu a escada e entrou na casa implantando o terror! O bloco vai sair! Vamos perder! Vamos agora! Meio atordoados os amigos pediam calma! Calma! Calma! Para apressá-los já foi arrumando o carro alegórico e as alegorias. Esvaziar o isopor, limpar o carrinho, arrumar o estandarte, verificar as condições da mosca. O Toca Raul se orgulha de ter carro alegórico e a mosca, uma alegoria feita de espuma e látex para homenagear o Mago Raul!

Quando terminaram de tomar o café os amigos já estavam no clima e juntos carregaram o carrinho e as alegorias para a rua e foram em direção à praça. No posto compraram gelo e pronto, em trinta minutos teriam cerveja gelada. O bloco, que não é bloco, é uma agremiação psicodélica, não toca nada, mas em compensação bebem cerveja gelada que transportam no isopor em um carrinho de supermercado. Pode faltar tudo no carnaval, menos cerveja gelada.

Quando chegaram a praça o Bloco da Tetê a Santa já estava se concentrando. Sara, a rainha da bateria evoluía com graça, Milene, a porta estandarte recebia todos com graça e reverências! “Dizem que a Tetê é uma Santa que faz milagre e coisa e tal, mas milagre mesmo minha gente, é BH ter carnaval.” Na bateria, Milagros, Guto, Nian, Carem e músicos espontâneos já esquentavam o coro!

E a praça foi enchendo, gente chegando de todos os lados. Lá pelas três horas da tarde, com uma hora de atraso o bloco começa o seu cortejo pelo bairro. Nesta hora mais cinco foliões do Toca Raul já agregaram ao carro alegórico, cada qual trazendo sua caixa de latinha para ser gelada no cortejo.

O folião já estava em êxtase, abraçava a todos, confraternizava com os velhos e novos amigos! A Tetê segue pela Tenente Vitório e vira na Quimberlita. De repente uma gritaria, um corre corre: abram alas, abram alas! Então brilha! Brilha! É o pessoal do Bloco Então Brilha chegando com a sua bateria geringonça. Um carrinho de catar recicláveis com 8 instrumentos de percussão amarrados em suas laterais, dentro do carrinho o maestro vai coordenando os músicos. O Toca Raul, que anda colado na bateria, abriu espaço para o então Brilha se colocar junto e assim aumentarem o volume.

Estava tudo lindo, podia faltar harmonia, mas sobrava alegria, podia sair do ritmo, mas sem perder o pique! O cortejo segue até que se escuta: deita no cimento, deita no cimento. E em coreografia já ensaiada os foliões vão deitando ou assentando na rua. Todos abaixados, é hora da segunda parte do coro: praia da estação, praia da estação,  praia  pra praia, praia da estação. O funk do cimento é para puxar a orelha do vice prefeito que aparece na janela a acenar para os foliões. Ele pode ter brigado com o prefeito, mas o folião ainda tem um pé atrás com quem se aliou com o empresário/prefeito.

A Tetê manda o seu recado e continua descendo a rua, vira na Salinas e desce em direção a Parada do Cardoso. Os moradores do bairro se juntam ao bloco, e quem não pode seguir o cortejo joga água nos foliões que vibram com o refresco. A tarde caindo em Santa Tereza, um dia azul e radiante e o folião entregue em beijos e carinhos. Parece mesmo que o mundo acabou e ele não se lembra do resto do dia, noite…


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