Acaso acontece.

Conto de Natal | dezembro 21, 2011

Era uma vez um lugar muito, muito distante, depois do Barro Branco, que era o fim do mundo naquele tempo. Neste lugar a vida era muito diferente da que conhecemos. Não havia carros, não havia plástico e nem telefone. As pessoas, os animais e as entidades fantásticas viviam em completa harmonia com a natureza.

Em cada época do ano os moradores do lugar se reuniam para festas diversas. Tinha festa para a colheita, festa para a lua, festa para o sol, para a água, para o fogo, para a terra, festa para a noite, festa para o dia… todas as festas celebravam a magia de viver. E por ali as pessoas viviam muito bem, felizes e bem alimentadas.

Um dia, um viajante chegou aquelas terras e trouxe uma notícia. Lá do outro lado do mundo as pessoas estavam celebrando o nascimento do Menino Jesus no final do mês de dezembro. E por coincidência era uma data próxima a que eles comemoravam a menor noite do ano. E o viajante contou mais, no dia em que celebram o nascimento do Menino Jesus um homem velho e gordo de barbas brancas leva presentes para todas as crianças. Ele não soube explicar direito o que este sujeito tinha a ver com o Menino Jesus. Não sabia se era parente, pai, avó ou tio, só sabia que distribuía presentes para as crianças e todas elas ficavam muito felizes.

A notícia correu todo o lugar, todo dia alguém comentava sobre esta festa do outro lado do mundo. E que beleza! Uma festa para presentear e alegrar as crianças! Uma festa durante a noite com muita comida e muita bebida. Uma festa que já acontecia em todo o mundo, menos ali. O falatório foi tanto que um grupo foi até o homem mais velho e mais sábio do lugar para saber o que deveriam fazer.

Depois de muitas conversas, horas e horas de debates, por ali tudo era resolvido assim, com muita conversa sempre, chegaram a uma conclusão: eles precisavam criar um Natal para o lugar. A festa da noite mais curta não encantava tanto como a idéia da festa do velhinho que distribui presentes. Aliás, o argumento final foi este: precisamos sempre encantar as crianças, são elas a fonte da magia da vida.

O Pai Preto, homem mais velho e mais sábio do lugar ficou encarregado de fazer a lista do que precisavam para a festa de Encantamento das Crianças. Logo ele se viu em uma grande enrascada. No lugar não tinha Renas, como puxar um trenó voador? No lugar não tinha Gnomos ou Duendes, quem iria fazer os presentes? Não lugar não tinha um homem gordo e barbudo para distribuir os presentes. Nem trenó existia por lá. Nossa, era coisa demais para organizar e Pai Preto estava sem saber por onde começar.

O tempo foi passando e nada, nada da festa ser organizada. Até que Pai Preto teve a ideia brilhante de pedir ajuda as entidades encantadas do lugar. Na lua cheia, duas semanas antes da lua nova, da noite mais curta do ano, quando seria a festa, ele convocou todas as entidades do lugar.

Naquela noite a lua surgiu mais bela e brilhante, parecia um grande queijo canastra saindo atrás da Serra do Cantagalo. Pai Preto havia varrido todo o terreiro e preparado algumas comidas e boa música para as entidades que deveriam chegar logo. De repente um tropel forte, de tremer a terra foi ouvido, todo mundo ficou apreensivo. Por trás de uma nuvem que ia baixa, perto do morro da onça, apareceu uma tropa de Mulas Sem Cabeças. Com seus pescoços em chamas e relinchando mudo assustaram a todos. Mas ninguém correu, sabiam que todas as entidades respeitavam Pai Preto e não iriam fazer nada de mau. As mulas levantaram poeira no terreiro e foram logo para um canto, se posicionaram em frente a uma velha carroça. Elas mostravam que queria fazer às vezes das Renas, que não existiam por ali. Pai Preto ficou feliz e pediu para os Ogans tocarem mais músicas que as Mulas Sem Cabeça acompanhavam batendo as patas no chão.

Logo em seguida começou um grande redemoinho junto ao bambuzal. De dentro do redemoinho começaram a pipocar Sacis. Eram Sacis do mundo inteiro e já chegaram fazendo traquinagens e zombarias. Pai Preto sabia que aqueles eram incontroláveis, eles gostavam de dar nós nos rabos e crinas das Mulas e provoca-las, se preocupou. Mas um dos Sacis chegou até o Pai Preto e retirou de dentro do gorro um brinquedo. Em seguida todos os Sacis fizeram o mesmo e começaram a surgir presentes de todos os jeitos. Bonecas, carrinhos, quebra-cabeças, jogos da memória, truques, jogos de adivinhações e muitos outros, todos feitos com materiais da mata. Pai Preto nem acreditava. Aquelas entidades que em outros momentos só aprontam, estavam ali para ajudar. Para substituir os Gnomos e Duendes que por ali não existiam.

Estava quase tudo pronto, mas a velha carroça de madeira não comportava todos os brinquedos e quando o Pai Preto pensava nisso um grande trovão se escutou. Em seguida um raio cortou o céu e Xangô desceu dele com seu machado de ferro em punho. Foi logo dizendo ao Pai Pedro. Meu velho, vou fazer para você a melhor carroça do mundo, ela será de metal forte e encantada para que as mulas sem cabeça possam voar puxando tudo. E assim fez Xangô, com o seu machado encantado em poucos minutos uma carroça novinha em folha estava pronta. Era linda! Todos exclamaram.

Mas ainda havia um problema, como distribuir os presentes? Quando pensou nisso Pai Preto tomou um susto. De dentro de uma moita começaram a sair Curupiras e eram muitos, de todos os lugares do mundo. Com seus pés virados pra trás, eles andavam devagar, mas sabiam como ninguém se esconder. Conseguiam andar por todo lado sem serem vistos, sabiam magias e encantos de esconder e sumir de vista. Eles foram  até o Pai Preto e se comprometeram que no dia da última lua nova do ano, na menor noite, eles viriam para ajudar o Pai Preto a distribuir os presentes.

E assim foi criado o primeiro Natal daquele lugar. E no dia da última lua nova, da menor noite do ano, Pai Preto subiu na carroça encantada que já estava cheia de presentes. Uma dúzia de Mulas Sem Cabeças, com muitas labaredas de fogo saindo pelo pescoço, assumiu a frente da carroça. Da moita saíram os Curupiras que foram logo se posicionando sobre a montanha de presentes. Quando o Pai Preto bateu palmas a carroça subiu pro céu e de lá foi passando de casa em casa e em cada uma delas os Curupiras deixaram um presente para as crianças que ali moravam. E fizeram tão bem feito, que ninguém os viu e hoje o pessoal desse lugar acredita mesmo que foi o Papai Noel que chegou até lá, depois do Barro Branco, que era o fim do mundo neste tempo.


4 Comentários

  1. lindo cuento de navidad, magia, canto y alegria…pequeños signos de una escritora hermosa y brillante.

    Comentário por Francisco — fevereiro 2, 2012 @ 12:11 pm

  2. fidelis, reservei um tempo para ler com a calma que merecem seus causos. sentei agora e me deliciei com a façanha do preto velho, mulas sem cabeça, curupiras e sacis. a surpresa foi xangô: Babá-Ekê! que feliz natal que nada… bjs do mar: Odoyá! desejo muito pião e amarelinha para gente se divertir. um bilboquê de sorte e muita corre cutia de saracura bicho feio nesse ano de 2012. e que preto velho nos livre de todo mal com muito axé.

    Comentário por patrícia mc quade — dezembro 25, 2011 @ 10:07 pm

  3. Natal brazuca como este não há!!! Feliz Natal pra vc também!
    Bjs
    Líva Limp

    Comentário por Lívia Limp — dezembro 21, 2011 @ 7:16 pm

  4. Que bonito ver os personagens de nossa cultura no natal.Lindo conto.
    Outro dia li em algum lugar que toda criança deveria ter pelo ao menos uma lembrança de um momento feliz e mágico para que ela possa se lembrar quando crescer.Realmente a ideia do natal pensada dessa forma faz muito mais sentido.

    Comentário por — dezembro 21, 2011 @ 6:43 pm


    Coloque aqui o seu email para receber semanalmente as atualizações do Acasoacontece.

    Join 19 other followers

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.